A cruz: maior símbolo cristão e sua utilização nas eleições em 2026

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Sou Daniel Seidel, membro do Observatório da Comunicação Religiosa, um serviço compartilhado pela Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional).

Neste período de Semana Santa e Páscoa, após um retiro que vivenciei, fui levado a refletir sobre a força comunicativa da cruz, maior símbolo do cristianismo.

Um símbolo que, de tão utilizado, corre o risco de perder sua dimensão profética.

Sua utilização pode indicar pertença ao cristianismo. No entanto, cabe a pergunta: a qual vivência cristã essa cruz se refere?

Àquela associada a uma lógica de supremacia branca, europeia e colonizadora, que chegou junto à espada para dominar terras consideradas “selvagens”?

Ou à cruz que se identifica com os crucificados de hoje — presentes nos cárceres, nas ruas, nas instituições e até mesmo nas igrejas —, pessoas que muitas vezes não têm direito à defesa ou ao justo processo, sendo condenadas previamente para manter a ordem social vigente?

Refere-se à cruz apropriada por homens “de bem”, que, amparados por privilégios estruturais, perpetuam violências e opressões?

Ou à cruz carregada por mulheres que resistem diariamente à violência, criando seus filhos sozinhas e enfrentando abusos e desigualdades?

É a cruz daqueles que se colocam como donos das terras e das águas — na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal, nos Pampas e no litoral — explorando recursos de forma predatória?

Ou a cruz dos povos originários e comunidades tradicionais, que lutam para sobreviver em territórios usurpados e reivindicam o direito ao bem-viver?

Em 2026, ano eleitoral, veremos candidatos e candidatas se apresentando como religiosos, muitas vezes utilizando a cruz como símbolo visível de sua fé.

Diante disso, será necessário exercer um discernimento profético: identificar aqueles que, apesar da aparência, não correspondem ao compromisso com a justiça e com a vida digna do povo.

Ao mesmo tempo, será fundamental reconhecer e apoiar trajetórias comprometidas com a promoção da dignidade humana, mesmo quando essas não se expressem por meio de símbolos religiosos explícitos.

Muitos e muitas carregam, na prática, a cruz das injustiças e opressões — vivendo o Evangelho em contextos desafiadores e, por vezes, invisibilizados.

Que nossas escolhas sejam guiadas pela coerência entre fé e prática.

O Reino de Deus se manifesta na vida entregue em favor dos que mais precisam — transformando clamores em direitos e políticas públicas.

Coragem, sempre.

Brasília, 16 de abril de 2026.
Daniel Seidel

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